Recentemente, a Samsung anunciou que o aumento do tempo de suporte para seus celulares está elevando o valor de revenda no mercado de usados. Junto a isso, Apple e Motorola estão adotando estratégias semelhantes para garantir mais tempo de atualizações em seus smartphones.
A expansão do suporte de software para até sete anos em smartphones trouxe à tona uma discussão relevante: isso realmente poderia elevar o valor de revenda dos dispositivos? A resposta é sim, mas não é o fator mais determinante. Especialistas consultados pela TecMania afirmam que a influência é mais perceptível na visão do consumidor do que no preço efetivo.
Nesse contexto, o ritmo de troca de celulares diminuiu e o mercado de segunda mão se consolidou no Brasil. Conversamos com Flávio Peres, CEO do Trocafone, para entender melhor as perspectivas desse cenário.
Valor de revenda é mais físico do que software
Apesar da relevância das atualizações, o valor de um smartphone usado ainda está muito atrelado a aspectos práticos.
“O software é um dos elementos que o consumidor valida, mas antes disso, ele se preocupa com fatores como a bateria, a funcionalidade do aparelho para ligações e fotos, e a conexão à internet”, explica Peres.
A condição do aparelho, seu funcionamento geral e os custos de manutenção continuam a ser decisivos. A troca da bateria, por exemplo, é uma prática comum em dispositivos mais antigos e pode prolongar significativamente sua vida útil, independente das atualizações de software.
Isso explica por que modelos antigos ainda são procurados. Dispositivos com quatro ou cinco anos de uso mantêm procura, especialmente por entregarem o básico com eficiência.
Mais atualizações aumentam interesse, mas não o preço
Para Peres, a ampliação no tempo de suporte pode influenciar o comportamento do consumidor, mas não diretamente no preço.
“Vejo com bons olhos esse movimento das fabricantes, mas não acredito que isso encareça dispositivos usados”, comenta o especialista.
Na prática, um suporte prolongado funciona mais como um fator de confiança. Saber que o dispositivo continuará a receber atualizações por mais tempo pode incentivar a compra no mercado de usados, especialmente entre consumidores mais exigentes.
“Se o consumidor souber que o software será suportado por mais tempo, com certeza ele considerará isso mais valioso. Podemos esperar um aumento de interesse”, complementa.
Consumidor brasileiro prioriza o custo-benefício
Outra consideração importante é que nem todos os consumidores têm a mesma percepção sobre a longevidade do software. O mercado brasileiro é diverso, com diferentes perfis de uso.
“Muitas pessoas possuem mais de um smartphone. Um para uso principal e outro para tarefas específicas”, afirma Peres. Isso gera espaço para aparelhos mais antigos, mesmo sem atualizações recentes.
Ainda assim, há uma tendência clara: a maior demanda está concentrada em modelos com dois a três anos de uso. “Esses ainda têm valor e atendem à maioria das necessidades práticas”, completa o CEO.
Atualizações podem alterar o ciclo de troca
Embora o suporte prolongado aumente a confiança no produto, ele pode impactar o ciclo de troca — mas não de forma isolada. A desaceleração já vem acontecendo há anos, impulsionada pela falta de grandes inovações tecnológicas.
“Atualmente, você troca um aparelho de um ano para o outro e não muda a forma como usa. Isso reduz a frequência das compras”, explica Peres.
Nesse cenário, o mercado de usados torna-se ainda mais relevante, pois diminui a “barreira de troca”, permitindo que o consumidor recupere parte do investimento ao vender seu dispositivo antigo.
“Se um smartphone não tivesse valor de revenda, as pessoas demorariam ainda mais para realizar a troca”, argumenta o especialista.
O papel estratégico do mercado de usados
Curiosamente, a valorização dos usados pode até incentivar a compra de novos aparelhos, pois reduz o custo efetivo da troca.
“Conforme os usados ganham valor, isso motiva as trocas. Fabricantes e varejistas também enxergam o mercado dessa maneira”, afirma Peres, citando programas de recompra como exemplo dessa estratégia.
Por fim, atualizações prolongadas não são o principal fator que determina o valor de revenda de um celular — mas ajudam a realçar sua atratividade. Elas aumentam a confiança do consumidor e podem potencializar a demanda, embora o preço ainda dependa mais de fatores tangíveis e da dinâmica do mercado.
A tendência é que, com o tempo, essa longevidade seja cada vez mais considerada nas decisões de compra. Contudo, o impacto será gradual e sempre combinado com outros elementos que definem o verdadeiro valor de um smartphone usado.
