Artemis II levará chips com células humanas para estudar os efeitos do espaço e preparar futuras missões à Lua e Marte.
A missão Artemis II, da NASA, não se limitará a transportar astronautas para a órbita lunar, mas também introduzirá versões “miniaturizadas” deles. O projeto inovador, conhecido como experimento AVATAR, utiliza chips com células humanas para observar em tempo real as reações do corpo ao ambiente hostil do espaço profundo.
Nomeado de A Virtual Astronaut Tissue Analog Response, o AVATAR é um dos testes biomédicos mais avançados já enviados para fora da órbita terrestre, sendo capaz de transformar tanto a exploração espacial quanto a medicina na Terra.
O que é o chip AVATAR?
O AVATAR utiliza a tecnologia conhecida como “organ-on-a-chip”. Esses dispositivos microscópicos, do tamanho de um pen drive, contém células humanas vivas cultivadas em microcanais que simula o funcionamento de tecidos reais.
Na missão Artemis II, esses chips são ainda mais especiais: eles foram desenvolvidos a partir de células dos próprios astronautas da missão. Cada chip serve como um “avatar biológico” personalizado, que reage às condições espaciais da mesma forma que o corpo do tripulante.
O foco principal está na medula óssea, que é responsável pela produção de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas, sendo extremamente sensível à radiação, um dos maiores riscos em missões além da proteção magnética da Terra. Após o retorno dos chips do espaço, os pesquisadores analisarão como o voo espacial afetou a medula óssea, realizando o sequenciamento de RNA de célula única e medindo a alteração de milhares de genes dentro das células individuais.
Por que isso é tão importante?
A Artemis II marca a primeira missão tripulada a ultrapassar a órbita terrestre em mais de cinco décadas, desde a Apollo 17. Durante aproximadamente 10 dias, os astronautas estarão expostos a altos níveis de radiação cósmica e microgravidade, condições que ainda não são completamente compreendidas pela ciência.
Cada chip AVATAR irá registrar, em nível molecular, como milhares de genes e células reagem a esse ambiente extremo. Após a missão, os cientistas analisarão essas mudanças para entender os impactos reais no corpo humano, podendo responder a perguntas cruciais, incluindo:
- Qual o dano que a radiação causa em tecidos humanos?
- Como o sistema imunológico reage fora da Terra?
- Quais são os riscos reais de missões longas, como uma viagem a Marte?
Medicina espacial personalizada
Um dos aspectos mais intrigantes do AVATAR é a possibilidade de desenvolver uma medicina espacial personalizada.
Como cada chip é baseado nas células de um astronauta específico, os cientistas poderão prever como aquele indivíduo reagirá ao ambiente espacial antes mesmo da missão.
Isso facilita decisões críticas, como:
- Definir limites de exposição seguras à radiação;
- Personalizar tratamentos e medicamentos para cada astronauta;
- Planejar missões com base no perfil biológico da equipe.
Embora seja desenvolvido para o contexto espacial, o AVATAR pode ter efeitos diretos na medicina terrestre. Os dados coletados podem contribuir para avanços em:
- Tratamentos contra câncer (especialmente os relacionados à radiação);
- Desenvolvimento de novos medicamentos;
- Estudos sobre envelhecimento celular e doenças degenerativas.
A tecnologia de organ-on-a-chip já é utilizada em pesquisas médicas, mas alocá-la em um contexto espacial leva esses estudos a um novo patamar, algo que não pode ser completamente reproduzido em laboratório. Tecnologias como satélites de comunicação, espuma viscoelástica e até mesmo o chip CMOS das câmeras de celulares são frutos dos avanços oriundos da exploração espacial.
Próximos passos do programa Artemis
Pelo menos mais duas missões Artemis estão previstas para os próximos anos, enfatizando o projeto ambicioso da NASA de estabelecer uma presença humana na Lua e avançar ainda mais. Um dos objetivos é realizar a primeira missão tripulada a Marte.
A missão Artemis 3 deverá marcar o retorno da humanidade à superfície lunar. Para essa etapa, a agência está avaliando entre o módulo da SpaceX e a versão da Blue Origin, enquanto a Axiom desenvolve os trajes espaciais.
Embora a próxima etapa ainda não tenha um calendário definido, especula-se que ocorrerá entre 2027 e 2028. A Artemis 4 deve ser projetada para solidificar a presença humana no satélite natural.
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