Criminosos usam dados de processos públicos e vazados para se passar por advogados, cobrar taxas falsas e acessar contas bancárias; Polícia Civil do Paraná prendeu cinco suspeitos
Criminosos estão utilizando informações reais de processos judiciais, como números de casos, nomes de advogados e detalhes das ações, para se apresentarem como representantes legais e enganarem vítimas, alegando que venceram uma causa. O golpe do “Falso Advogado” já levou à prisão de indivíduos em São Paulo e no Ceará, onde a polícia encontrou bots investigando tribunais à procura de novas vítimas.
Para compreender melhor como esse tipo de golpe opera, a TecMania conversou com Carolina Vissechi, advogada especialista em Direito Digital e Penal, que já teve seus dados utilizados 12 vezes por criminosos com o objetivo de enganar terceiros.
Entendendo o golpe do Falso Advogado
Vissechi explica que o crime começa com a coleta de dados. Os criminosos obtêm informações como telefones, nomes, números de processo e detalhes de ações judiciais por meio de sites de vazamento. Também é possível que tenham acesso a essas informações através de consultas em sites legítimos, caso os processos não estejam em segredo de justiça.
Com esses dados, os golpistas criam perfis no WhatsApp usando o nome e foto do advogado da vítima, ou o logotipo do escritório de advocacia. Durante a abordagem, eles trazem boas notícias, afirmando que o cliente ganhou a ação e possui um valor alto a receber. A armadilha é armada quando a vítima é levada a pagar uma suposta “taxa judiciária” por meio de PIX ou boleto.
Simulando audiências virtuais e espelhamento de tela
Em casos mais elaborados, os criminosos conseguem até simular audiências virtuais. Vissechi relata que um de seus clientes quase caiu nessa armadilha. “Os golpistas simularam uma audiência virtual com promotor, juiz e advogado. Durante uma chamada, o cliente começou a passar os dados da conta bancária, mas teve um lampejo e resolveu entrar em contato comigo”, conta.
Durante essas chamadas, os golpistas podem usar atores e documentos falsificados, incluindo logos de tribunais e da OAB, para aumentar a credibilidade.
Outra estratégia arriscada envolve a técnica de espelhamento de tela. Sob a desculpa de ajudar a vítima em um procedimento técnico, os criminosos convencem a pessoa a compartilhar a tela do celular, permitindo que visualizem senhas e dados bancários, esvaziando as contas rapidamente.
Carolina Vissechi está processando a Meta Platforms Inc. após ter seus dados usados treze vezes em golpes desse tipo. Ela diz ter denunciado a plataforma sobre o uso indevido de sua imagem, mas até agora não houve ação por parte da Meta.
Como se proteger desse tipo de golpe
A prevenção é a ferramenta mais eficaz contra fraudes, já que os golpistas exploram a urgência e o entusiasmo das vítimas ao ganhar processos judiciais.
Carolina recomenda algumas etapas para evitar ser enganado: primeiro, verifique se o número que está contactando realmente corresponde ao que seu advogado forneceu. Se a comunicação não for possível, você pode consultar diretamente o site do Tribunal de Justiça para confirmar o status de sua ação.
Além disso, ao ganhar uma causa, é crucial lembrar que não há necessidade de pagar taxas para liberar valores. “Desconfie de boas notícias que geram senso de urgência; normalmente, golpistas estabelecem prazos curtos para evitar que você confirme as informações”, alerta Vissechi.
- Desconfie de taxas: um verdadeiro advogado nunca pedirá um pagamento antecipado para liberar valores de um processo ganho;
- Verifique o número: se receber mensagens de um número diferente, mesmo que com a foto do seu advogado, não responda de imediato;
- Ligue para números oficiais: entre em contato com o número que já possui ou vá ao escritório pessoalmente;
- Cuidado com promessas exageradas: se o valor prometido for muito acima do que foi discutido, desconfie;
- Atenção ao senso de urgência: golpistas pressionam para que o pagamento seja feito rapidamente;
- Não compartilhe a tela: não aceite compartilhar sua tela ou fornecer senhas durante chamadas de vídeo;
- Cheque dados do destinatário: antes de confirmar qualquer transação, assegure-se de que o nome do beneficiário é o do seu advogado.
Carolina enfatiza a seriedade do golpe, que usa dados reais, dificultando a identificação do crime: “Eles utilizam informações verídicas, como o número do seu processo, portanto é um desafio impedir que isso ocorra”.
Se você se tornou uma vítima, o que fazer?
Caso caia nesse golpe, a primeira medida é registrar um Boletim de Ocorrência detalhado, incluindo prints das conversas, o número do golpista e comprovantes de transação.
Depois, entre em contato imediatamente com sua instituição financeira. Segundo Carolina, é essencial solicitar a ativação do Mecanismo Especial de Devolução (MED) para tentar recuperar os valores.
Carolina explica que o banco também tem sua responsabilidade: “Se as transações não condizem com o perfil do consumidor, a instituição financeira deve barrar transações potencialmente fraudulentas”.
“É fundamental manter provas, pois elas são essenciais para qualquer processo judicial. Depois, entre em contato com o banco ou com o gerente para informar o ocorrido e manter o número do protocolo da ligação, solicitando a ativação do mecanismo especial para reaver todos os valores transferidos indevidamente”, orienta Carolina.
De acordo com a advogada, é possível responsabilizar a instituição financeira se as transações não seguem o perfil do consumidor, podendo, assim, tentar a devolução dos valores transferidos erroneamente. “A vítima pode acionar a esfera civil para responsabilizar a instituição e buscar a restituição dos valores”, conclui Vissechi.
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